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Comunicação

Palestra de encerramento reafirma que o sonho freireano continua vivo em Angicos

Campus Angicos 28 de setembro de 2026. Visualizações: 61. Última modificação: 28/09/2026 10:30:51

A palestra de encerramento foi conduzida pelos professores Valdo Cavallet e Valentim Silva, da UFPR/Foto: Eduardo Mendonça

O III Seminário Paulo Freire, realizado no Campus Angicos da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), chegou ao fim reafirmando uma ideia que atravessou os três dias de programação: a experiência de Paulo Freire em Angicos não pertence apenas ao passado. Ela continua provocando perguntas, inspirando práticas e alimentando sonhos para a educação do presente e do futuro.

A palestra de encerramento foi conduzida pelos professores Valdo Cavallet e Valentim Silva, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Pela terceira vez em Angicos, Cavallet destacou a evolução do seminário e sua crescente importância para a difusão do legado freireano. “Terceira vez e mais animado do que a segunda, que já estava mais animado do que a primeira”, afirmou, ao avaliar sua participação no evento.

Participantes lotam as palestras/Foto: Eduardo Mendonça

Para o professor, a cada edição o seminário se fortalece e amplia sua presença no cenário nacional. “A evolução que esse seminário está construindo é muito grande, é muito significativo”, ressaltou. Segundo ele, o encontro vem se tornando cada vez mais institucionalizado, referenciado e compreendido no Brasil, reunindo diferentes instituições em torno da memória e da atualidade do pensamento de Paulo Freire.

Cavallet considera que a força do seminário não está necessariamente na quantidade de participantes, mas na capacidade de mobilização que ele representa. “Ele passa a ser nacional, com força política e com força institucional”, afirmou.

Para o professor, realizado a partir de uma universidade federal brasileira, o seminário cumpre um papel importante ao criar um espaço permanente de difusão e reconstrução da memória de Paulo Freire. “Tem muito material historicamente construído de Paulo Freire, mas o que precisava era um espaço como esse seminário para difundir todo esse material construído e ir construindo ainda mais”, destacou.

Professor Valdo Cavallet é preciso sonhar/Foto: Eduarfo Mendonça

Continuar sonhando – Foi justamente o sonho que orientou a palestra de encerramento. Cavallet contou que recebeu dos organizadores a tarefa de “continuar sonhando” e refletir sobre como manter o processo de evolução observado desde a primeira edição do seminário. Mais do que pensar no próximo encontro, a proposta foi olhar para o intervalo entre um seminário e outro e perguntar o que pode ser feito no cotidiano para fortalecer uma educação democrática e humanizadora.

“Como continuar evoluindo? Evoluindo com a ideia, não só do seminário, mas dos trabalhos educacionais, de uma educação democrática, de uma educação humanizadora”, explicou. A provocação deixada aos participantes foi sobre o que cada um pode fazer depois que o encontro termina. “O que nós fazemos no nosso dia a dia até o próximo seminário? O que pode ser feito? O que nós podemos fazer para continuar sonhando, para continuar com esperança diante do mundo que está aí”, questionou. A resposta, coerente com o espírito do encontro, não está apenas na lembrança de Angicos, mas na capacidade de transformar a memória em prática.

Professora Helena Singer a prática frereana é necessária/Foto: Eduardo Mendonça

Paulo Freire para além da citação

A professora Helena Singer também destacou a importância de realizar o seminário em Angicos e de fortalecer a articulação entre a universidade e o território. Para ela, voltar à experiência das 40 Horas significa recuperar a memória com mais informações e profundidade, evitando que Paulo Freire seja reduzido a um nome ou a frases reproduzidas sem relação com a prática.

“Retomar em Angicos essa história, essa memória, fortalecendo a partir de uma articulação da Universidade com o território, isso é muito importante para Angicos, para o estado do Rio Grande do Norte e para o Brasil”, afirmou. Segundo Helena, é preciso superar uma compreensão cristalizada do educador. “Muitas vezes ficou uma coisa cristalizada, um nome que todo mundo cita, que nos congressos tem que ter sempre uma frase de Paulo Freire, mas que na prática as pessoas não praticam o que de fato ele estava ali mobilizando, ensinando, construindo junto com muitos outros atores”, observou.

A professora também relacionou o pensamento freireano aos desafios contemporâneos e defendeu que a educação continue sendo colocada no centro das decisões sobre o futuro do país.

Pesquisadora da economia solidária, Helena Singer encontrou na experiência freireana uma forte aproximação com os princípios do trabalho coletivo e da autogestão. Para ela, a economia solidária parte da organização coletiva e democrática do trabalho, buscando não apenas a sobrevivência, mas também a transformação da realidade. “A economia solidária traz a solidariedade no lugar da competição”, explicou.

Na perspectiva apresentada pela professora, a lógica não é a de que alguém precisa vencer para que outro fracasse. Os empreendimentos atuam de forma articulada e solidária, buscando construir resultados coletivos. “Todo mundo junto vai vencer junto”, resumiu. Para Helena, esse princípio dialoga diretamente com o pensamento de Paulo Freire: “A economia solidária tem esse princípio de que tem que ser para todo mundo, que é muito irmão de Paulo Freire”.

Uma escola que se reinventa

Professora Leila Sarmento e a Escola dos Sonhos/Foto: Eduardo Mendonça

A programação do seminário também trouxe experiências concretas de transformação da escola. A professora Leila Sarmento apresentou a experiência da Escola dos Sonhos, de Bananeiras, na Paraíba, inspirada, entre outras referências, no pensamento de Paulo Freire. Para Leila, estar em um evento freireano significa reafirmar a possibilidade de construir uma educação diferente daquela marcada pela lógica bancária. “Freire é aquele que nos leva a alçar voos disruptivos, sair dessa educação bancária e construir uma outra educação possível”, afirmou.

A experiência da Escola dos Sonhos rompe com concepções tradicionais de ambiente, aprendizagem, currículo, metodologia, avaliação e gestão. A proposta parte da compreensão de que a escola precisa ser construída coletivamente e gerar pertencimento. “Ela tem que ser de todos, tem que gerar esse pertencimento para que ela faça sentido”, destacou.

Mesa contou com a participação da aluna de Paulo Freire, Valdice Ivonete/Foto: Eduardo Mendonça

Na escola, o currículo não é concebido como algo pronto para ser executado durante o ano letivo. Ele é construído a partir das curiosidades dos estudantes, das áreas do conhecimento e das ações desenvolvidas na comunidade. “O currículo para nós é uma composição de elementos que vão sendo desenvolvidos ao longo do ano letivo. Ele não está pronto”, explicou.

A experiência também procura romper com a organização tradicional por séries, trabalhando com núcleos e focos de aprendizagem. O processo considera os diferentes tempos das crianças e estabelece objetivos pedagógicos para cada etapa. “Às vezes ela não rende aqui, mas rende ali, e a gente precisa reter”, explicou Leila, ao abordar a progressão dos estudantes. A proposta, segundo ela, não significa deixar de ensinar conteúdos, mas buscar outras formas de fazê-lo. “Ensinam, só que de uma outra forma diferente”, afirmou.

João Victor, neto do aluno de Paulo Freire, Paulo Souza/Foto: Cedida

Avaliação – Na avaliação de João Victor, coordenador do evento e membro do coletivo Núcleo de Estudos Freireanos, o encerramento do seminário representa menos um ponto final e mais a preparação para um novo começo. Ele comparou o fim do encontro a “um crepúsculo que nos prepara para um novo amanhecer”. A imagem traduz a compreensão de que os dias de convivência, diálogo e reflexão precisam permanecer como memória e, sobretudo, como impulso para novas práticas.

A avaliação também destacou a participação de estudiosos, comunidade local, estudantes da Educação de Jovens e Adultos, crianças e integrantes de grupos sociais. Para os organizadores, essa diversidade ajudou a aproximar universidade e território e a fortalecer a proposta de um seminário construído a partir da amorosidade e da dialogicidade.

O III Seminário Paulo Freire chega ao fim, portanto, deixando uma tarefa para além da programação: transformar a experiência vivida em prática cotidiana. Como ensinamento que atravessa as falas dos participantes, continuar sonhando também é continuar agindo. Em Angicos, onde a experiência das 40 Horas permanece como referência histórica, o sonho freireano continua encontrando novas formas de florescer.

Veja AQUI o 1º dia do Seminário Paulo Freire, AQUI o 2º dia e AQUI a exposição As mãos que escreveram Angicos.