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Comunicação

As mãos que escreveram Angicos resgatam histórias de luta no Memorial Paulo Freire

Campus Angicos 25 de setembro de 2026. Visualizações: 65. Última modificação: 25/09/2026 07:44:18

 

exposição “As mãos que escreveram Angicos” é uma das atrações do III Seminário de Paulo Freire/Foto: Eduardo Mendonça

As mãos que um dia escreveram as primeiras palavras nas 40 Horas de Angicos agora voltam ao lugar onde suas histórias ganharam novos sentidos. No Memorial Paulo Freire, no Campus Angicos da UFERSA, fotografias, objetos pessoais e esculturas das mãos de 21 alunos do educador ajudam a contar não apenas a experiência de alfabetização, mas, sobretudo, as vidas que existiam antes, durante e depois dela.

A exposição “As mãos que escreveram Angicos” é uma das atrações do III Seminário de Paulo Freire, que acontece até esta sexta-feira, 25. A abertura ocorreu no Auditório Valquíria Félix, reunindo alunos freireanos e integrantes da comunidade acadêmica em um momento marcado pela memória e pela afetividade.

Proposta é despertar para o contexto histórico das 40 Horas de Angicos/Foto: Eduardo Mendonça

A proposta é deslocar o olhar. Em vez de apresentar apenas a experiência das 40 Horas como um acontecimento histórico, a exposição procura revelar as pessoas que fizeram parte dela. São objetos que pertenceram aos ex-alunos e que, de alguma maneira, ajudam a contar suas trajetórias. Instrumentos de trabalho, livros, fotografias e outros objetos cotidianos passam a ocupar o espaço do museu como testemunhos de vidas.

“O foco maior é justamente as vidas de cada um dos ex-alunos, tirando um pouco o foco do método freiriano das 40 horas, embora, é claro, o método seja a base”, explica o curador da exposição, professor Victor Mendes.

Para ele, a exposição nasce do desejo dos próprios ex-alunos de preservar e compartilhar suas memórias. A técnica da museologia, segundo o professor, contribuiu para transformar esse desejo em uma narrativa capaz de reunir ciência, cultura e afetividade. “Partindo da memória, do direito à memória, da salvaguarda dessa história e das narrativas que constituem as vidas dos ex-alunos de Paulo Freire”, afirma.

O recorte curatorial parte justamente das mãos. São elas que trabalham, escrevem, cozinham, costuram, cuidam e transformam o mundo. Por isso, os objetos escolhidos para a exposição são aqueles que foram utilizados ou manuseados pelos próprios ex-alunos.

Objetos dos freireanos/Foto: Eduardo Mendonça

Entre as peças, há desde uma receita de bolo escrita à mão até um vestido usado por uma ex-aluna em um momento de participação política, quando foi votar. Cada objeto, aparentemente simples, carrega uma experiência e devolve ao presente um pedaço da trajetória de quem o utilizou. “É a história sendo escrita a partir dessa afetividade dos itens manuseados pelos ex-alunos”, explica Victor Mendes.

Na parede, relógios remetem às 40 horas que deram nome à experiência de alfabetização coordenada por Paulo Freire em Angicos, em 1963, mas também convidam a uma reflexão sobre outro tempo: o tempo vivido por homens e mulheres que atravessaram décadas carregando consigo as marcas daquela experiência.

A proposta da exposição não é apenas falar do passado. Ela aproxima passado e presente por meio de objetos que continuam dizendo alguma coisa sobre quem os possuiu e sobre a comunidade que ajudou a construir a história de Angicos.

Professor Victor Mendes, curador da exposição/Foto: Edaurdo Mendonça

Para o curador, esse caráter humano está diretamente relacionado ao papel do museu na sociedade. A exposição integra as atividades da Primavera dos Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), que neste ano tem como tema “Museus para Todas as Pessoas”. “É impossível a gente falar de museu para todas as pessoas sem entender quem são essas pessoas, falar de suas histórias, de suas narrativas, de suas constituições vividas”, destaca Victor. “Cada um ao seu modo, ao seu tempo, ao seu passo e às suas conduções”, destacou.

As mãos que permanecem

Mãos que escreveram Angicos/Foto: Eduardo Mendonça

Entre as pessoas homenageadas está dona Eneide, uma das alunas de Paulo Freire. Para ela, estar representada no Memorial, por meio da fotografia e da escultura de suas mãos, é uma experiência que ultrapassa a homenagem. “É um momento ímpar para mim, porque eu não esperava tamanha homenagem”, afirma.

A presença no Memorial Paulo Freire também desperta nela uma lembrança de outro tempo, quando era aluna e participava da experiência que transformaria Angicos em referência mundial de educação popular.

D. Eneida, uma das homenageadas/Foto: Eduardo Mendonça

“Me sinto muito realizada em estar aqui participando, em poder mais uma vez dar a minha presença aqui. Com a mesma alegria talvez da criança que eu estudei, estou sentindo”, relata.

As mãos de dona Eneide e dos demais alunos freireanos agora permanecem inscritas no Memorial. São mãos que carregam marcas do trabalho, da aprendizagem, da sobrevivência e da esperança. Mãos que, há mais de seis décadas, ajudaram a escrever uma das páginas mais conhecidas da história da educação brasileira. Em Angicos, elas continuam escrevendo. Desta vez, não com giz ou lápis, mas com a própria memória.