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Comunicação

Cortejo leva memória das 40 Horas de Paulo Freire às ruas de Angicos

Campus Angicos 24 de setembro de 2026. Visualizações: 77. Última modificação: 24/09/2026 09:30:02

Iniciativa reuniu ex-alunos das 40 Horas de Angicos, escolas, grupos culturais, universidades e moradores da comunidade/Foto: Eduardo Mendonça

Professora Juliana Rocha e equipe de organização/Foto: Eduardo Mendonça

As ruas de Angicos foram tomadas pela memória, pela cultura e pela educação durante o cortejo cultural “Caminhando com Angicos, resgatamos a memória das 40 Horas”, que antecedeu a abertura do III Seminário Paulo Freire, promovido pelo Memorial Paulo Freire, na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA). A iniciativa reuniu ex-alunos das 40 Horas de Angicos, escolas, grupos culturais, universidades e moradores da comunidade em uma celebração que levou para as ruas princípios difundidos na obra do educador pernambucano.

O cortejo percorreu as principais ruas da cidade e teve como ponto de encontro o coreto da Igreja Matriz, no Centro de Angicos, onde foi realizada uma programação cultural. Entre as atividades, crianças participaram de uma encenação que rememorou a experiência das 40 Horas de Angicos, aproximando diferentes gerações de uma história que permanece presente na identidade do município.

Cortejo Cultural/Foto: Eduardo Mendonça

Para a coordenadora do Memorial Paulo Freire, professora da UFERSA Juliana Rocha, o cortejo foi pensado justamente para reunir a comunidade e instituições parceiras em torno de uma concepção de educação baseada no diálogo, na criticidade e na transformação social. “É o momento de reunir tudo o que Angicos tem e também reunir essas pessoas que pensam e querem, torcem e vibram e lutam por uma educação diferente, transformadora, dialógica, com criticidade, com muito respeito, com amorosidade”, destacou.

A programação também evidencia a ampliação do alcance do Seminário Paulo Freire, que reúne participantes de diferentes regiões do Brasil e de fora também. Segundo Juliana, o trabalho de preservação da memória das 40 Horas e o contato direto com os ex-alunos têm contribuído para aproximar o Memorial de outras instituições e pesquisadores.

Entre os participantes estava o professor Jorge Kniznik, da Faculdade de Educação da Western Sydney University, na Austrália. Com mais de 40 anos de trajetória na educação, ele considera Angicos uma referência que ultrapassa as fronteiras do município e do Brasil. Autor de um livro que tem Angicos entre suas referências, o professor participou do Cortejo Cultural.

Para Kniznik, o cortejo traduziu de forma concreta o legado de Paulo Freire ao reunir memória, comunidade e esperança. O momento de reencontro com os ex-alunos das 40 Horas foi especialmente marcante. “Ficamos muito emocionados. Na frente da escola, quando apareceram os ex-alunos da experiência de Angicos, eu chorei. Acho que isso representa tanto o passado quanto aquilo que a gente ainda quer construir”, afirmou.

Na avaliação do professor, o cortejo expressa a dimensão permanente do pensamento freireano. “Nunca perder a esperança, ao contrário, sempre continuar lutando”, resumiu. Para ele, a manifestação pelas ruas de Angicos representa também a defesa da educação como instrumento de transformação da sociedade.

Ao colocar estudantes, professores, pesquisadores, ex-alunos das 40 Horas, artistas e moradores lado a lado, o cortejo transformou a memória de uma experiência educacional iniciada em 1963 em uma manifestação coletiva no presente. Mais do que recordar a história, a caminhada reafirmou uma das ideias centrais do pensamento de Paulo Freire: a educação como construção coletiva, marcada pelo diálogo, pela participação popular e pela esperança de transformação.

Experiência histórica de uma educação dialógica, transformadora e esperançosa

Mesa Dialógica “De Angicos ao Mundo: Educação que une, cultura que transforma e esperança que permanece”/Foto: Eduardo Mendonça

A experiência das 40 Horas de Angicos continua produzindo reflexões sobre educação, cultura e transformação social. Essa foi uma das ideias centrais da Mesa Dialógica “De Angicos ao Mundo: Educação que une, cultura que transforma e esperança que permanece”, que abriu oficialmente a programação do III Seminário Paulo Freire, em Angicos. Os professores César Nunes, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Maurylandi Bicas, da Universidade de São Paulo (USP), destacaram a importância histórica da experiência e a atualidade do pensamento de Paulo Freire.

Para o professor César Nunes, uma das principais lições deixadas por Paulo Freire está na humanização das relações educativas. O professor relatou experiências de sua própria trajetória escolar, marcada inicialmente pela dificuldade de acesso à escola e, posteriormente, por práticas autoritárias.

Foi na convivência com Paulo Freire, segundo ele, que encontrou outra perspectiva para a educação, baseada no acolhimento e na escuta. “Com Paulo Freire eu vi um dos mais belíssimos traços da educação: a humanização, o acolhimento, a escuta”, afirmou.

O professor também destacou a maneira como Paulo Freire acolhia as perguntas e os questionamentos durante suas atividades. Segundo Nunes, o educador não desqualificava perguntas consideradas simples ou inadequadas. Ao contrário, procurava estimular quem perguntava. Essa postura, segundo ele, está relacionada ao conceito de amorosidade presente na pedagogia freireana. “Ele fazia da didática amorosa”, pontuou. Para Nunes, a relação afetiva é fundamental no processo educativo. “Conquistar o coração para depois ganhar a cabeça. Quando você ganha o coração, você ganha a cabeça”, disse. Na avaliação do professor, a educação permanece como uma das maiores heranças que uma sociedade pode oferecer às novas gerações. “Deixa educação”, resumiu.

A professora Maurylandi Bicas também destacou a dimensão histórica de Angicos, especialmente para a educação brasileira e a educação de jovens e adultos. Para ela, a experiência das 40 Horas não deve ser compreendida como um episódio encerrado em 1963, mas como uma experiência que continua sendo reinventada em diferentes contextos. “Angicos foi uma experiência fundamental para o Brasil, para a educação brasileira, para a educação de jovens e adultos”, afirmou.

Segundo a professora, a experiência de Angicos pode ser compreendida como uma inspiração para outros processos dos quais Paulo Freire participou posteriormente, inclusive em países como o Chile e em países africanos de língua portuguesa. “Angicos foi uma história que não terminou. Ela está sempre sendo reinventada em outras culturas, em outras línguas”, destacou.

Para Maurylandi, essa compreensão também contribui para evitar a transformação de Paulo Freire em uma figura distante de seu contexto histórico. “Angicos não é um monumento, Paulo Freire não é mito, ele é um sujeito histórico em relações com outros sujeitos históricos”, afirmou.

As ruas de Angicos foram tomadas pela memória, pela cultura e pela educação durante o cortejo cultural “Caminhando com Angicos, resgatamos a memória das 40 Horas”, que antecedeu a abertura do III Seminário Paulo Freire, promovido pelo Memorial Paulo Freire, na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA). A iniciativa reuniu ex-alunos das 40 Horas de Angicos, escolas, grupos culturais, universidades e moradores da comunidade em uma celebração que levou para as ruas princípios difundidos na obra do educador pernambucano.

Seminário mantém viva experiência pioneira em Angicos

Professor Nildo Dias/,-reitor da Ufersa

Samuel Azevedo, Diretor do Campus Angicos/Foto: Edaurdo Azevedo

Professora Juliana Rocha, Diretora do Campus Angicos/Foto: Eduardo Mendona

A abertura do seminário também foi marcada pela reflexão sobre o papel da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) na preservação e atualização desse legado. O vice-reitor da instituição, professor Nildo Dias, destacou o significado histórico e simbólico do Memorial Paulo Freire e a responsabilidade da Universidade por manter um campus em Angicos.
“Reunimo-nos aqui não apenas para realizar um evento acadêmico, mas celebrar ideias, experiências e compromissos que mantêm vivo o legado de Paulo Freire e a sua compreensão da educação como prática de diálogo, transformação e esperança”, afirmou.
Para o vice-reitor, a experiência de Angicos mostrou que educar vai além da transmissão de conhecimentos. “É reconhecer as pessoas, seus saberes, suas experiências e sua capacidade de compreender e transformar a realidade”, disse. Nildo Dias ressaltou ainda que a presença da UFERSA em Angicos representa uma responsabilidade especial diante do lugar ocupado pelo município na história da educação brasileira.
O diretor do Campus Angicos, professor Samuel Azevedo, destacou que a realização do seminário representa a concretização de um projeto construído ao longo dos anos. Ele lembrou a participação de professores no projeto do curso de Pedagogia e na criação do Memorial Paulo Freire, em 2014. “O Seminário Paulo Freire traz a realização desse sonho que estamos vivenciando”, afirmou.
Ao falar sobre o Memorial, a diretora, professora Juliana Rocha, rejeitou a ideia de que o espaço possa ser compreendido apenas como uma estrutura física. “O Memorial Paulo Freire são mãos com mangas muito arregaçadas, com muita força, com muita coragem”, afirmou.
Para Juliana, o Memorial é formado pelo trabalho coletivo de professores, estudantes e comunidade. Ela destacou as ações desenvolvidas para aproximar o espaço dos moradores de Angicos e do Semiárido, incluindo oficinas de pintura em tecido realizadas desde março e que resultaram nas bolsas entregues aos participantes do seminário. “Todo mundo nesse movimento de construção coletiva”, afirmou. “O efeito não é de Juliana, não é de Samuel, o efeito de fato é nosso”.
A diretora também definiu o Memorial como “um grande abraço” e um exercício de aproximação com a comunidade. Segundo ela, o trabalho desenvolvido pelo coletivo está relacionado ao desejo de contribuir para as transformações necessárias no território.
“O Memorial Paulo Freire é um coração pulsante, que pulsa a vida, que pulsa a alegria e, mais do que tudo, a vontade de mudar”, declarou.
A professora destacou ainda a participação do coletivo responsável pelas ações do Memorial, formado por oito professores e 30 estudantes. Para ela, a mobilização em torno do seminário demonstra que a experiência iniciada em Angicos continua capaz de reunir pessoas em torno de um projeto coletivo.
Ao encerrar sua fala, a diretora recorreu à ideia do sonho coletivo para definir o momento vivido pelo Memorial e pelo seminário. “Um sonho que se sonha só é só um sonho, e um sonho que se sonha junto é realidade”, afirmou. “O que nós estamos vivendo foi um sonho, é o nosso inédito viável acontecendo”, finalizou.
A Mesa Dialógica, assim, abriu o III Seminário Paulo Freire retomando uma questão central da experiência de Angicos: a educação como processo de humanização, diálogo e transformação. Mais de seis décadas depois das 40 Horas, a cidade continua sendo espaço de reflexão sobre uma experiência que, como destacou Maurylandi Bicas, “não terminou”, mas segue sendo reinventada.