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Comunicação

Pesquisa utiliza ciência cidadã para explicar raro fenômeno de regeneração em caudas de lagartos

Pesquisa, Publicações 31 de julho de 2026. Visualizações: 224. Última modificação: 31/07/2026 11:48:23

Pesquisadores analisaram 136.069 imagens compartilhadas por voluntários/Foto: iNaturalist

Um fenômeno que parece saído da ficção científica, mas que ocorre na natureza foi investigado por pesquisadores da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e acaba de ganhar destaque internacional. Estudo liderado pelo professor Lucas Rodriguez Forti, do Centro de Ciências Biológicas da UFERSA e do Observatório Ambiental do Semiárido, identificou que lagartos com duas ou até três caudas são extremamente raros e tendem a ser registrados com maior frequência em regiões com elevada incidência de radiação solar. Os resultados foram publicados no Journal of Biogeography, um dos periódicos científicos de referência na área da Biogeografia.

A pesquisa foi desenvolvida em parceria com cientistas da Charles Darwin University, na Austrália, e do Institut Natura i Teoria en Pirinèus, na França. Além da UFERSA, o professor Lucas Forti integra o Brazilian Institute of Data Science (BI0S), da UNICAMP. Para chegar às conclusões, os pesquisadores analisaram 136.069 imagens compartilhadas por voluntários na plataforma iNaturalist, um dos maiores bancos mundiais de registros de biodiversidade produzidos por cientistas cidadãos. Entre todos esses registros, apenas 89 apresentavam casos de regeneração anormal, distribuídos em 21 gêneros de lagartos.

Professor Lucas Forti/Foto: Cedida

Segundo o professor Lucas Forti, a localização geográfica dessas observações foi cruzada com dados ambientais, revelando uma associação entre a ocorrência das múltiplas caudas e áreas com maior incidência de radiação solar. “Embora a causa exata ainda não tenha sido testada, uma das principais hipóteses em consideração é que a exposição excessiva à radiação ultravioleta provoque estresse oxidativo e danos ao desenvolvimento, favorecendo a ocorrência dessas regenerações anômalas”, explica.

A perda da cauda é uma estratégia natural de defesa adotada por diversas espécies de lagartos para escapar de predadores, processo conhecido como autotomia. O mais impressionante é que esses animais conseguem regenerar esse apêndice em poucas semanas ou meses. Em situações muito incomuns, porém, essa regeneração pode resultar no surgimento de duas ou mais caudas.

Embora ainda sejam necessários novos estudos para compreender completamente esse mecanismo, os pesquisadores destacam que essa alteração pode trazer prejuízos aos animais. Múltiplas caudas podem comprometer a locomoção, dificultar a comunicação entre indivíduos – especialmente em espécies que utilizam movimentos da cauda para demarcar território e reduzir a eficiência na fuga de predadores.

Além do interesse biológico, a pesquisa também apresenta implicações para a conservação da biodiversidade. Os resultados reforçam a necessidade de compreender como fatores ambientais podem influenciar alterações no desenvolvimento dos animais, especialmente diante das mudanças climáticas. Embora o estudo não tenha identificado relação direta com a temperatura, os pesquisadores apontam que o aquecimento global pode interagir com fatores responsáveis por essas anomalias.

Ciência cidadã – Um dos principais destaques do trabalho é a utilização da chamada ciência cidadã, modelo em que pessoas comuns contribuem com registros da natureza por meio de plataformas digitais. Para Lucas Forti, esse tipo de colaboração tem revolucionado a pesquisa em biodiversidade. “A ciência cidadã não altera a raridade desses fenômenos. O que ela altera é a escala de observação. Um evento que ocorre apenas algumas dezenas de vezes entre mais de cem mil registros continua extremamente raro, mas deixa de ser invisível para a ciência quando milhares de pessoas contribuem com observações distribuídas pelo mundo”, destaca.

O pesquisador ressalta que essa participação pública tem permitido investigar processos antes praticamente inacessíveis aos cientistas, como malformações, regenerações anômalas e fenótipos raros, a exemplo do albinismo, leucismo e eritrismo em diferentes grupos da fauna silvestre. “A ciência cidadã de fato tem gerado uma verdadeira revolução na forma como dados científicos, especialmente ligados à biodiversidade, têm sido coletados. Ignorar esse processo, mesmo que vários vieses necessitem de consideração, é negar que a ciência possa progredir para compreender fenômenos que, de outra maneira, permaneceriam inacessíveis”, afirma.

Para o pesquisador, a descoberta também deixa um convite à população. Observar atentamente uma lagartixa na parede de casa pode significar muito mais do que um encontro cotidiano. Um registro fotográfico de uma característica incomum pode representar uma contribuição valiosa para a ciência e ajudar a ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade mundial.

O artigo científico está disponível na íntegra no periódico Journal of Biogeography: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jbi.70316