
Durante Seminário Memorial ganha busto do educador Paulo Freire em meio de uma extensão programação que mobilizou a população angicana/Foto: Eduardo Mendonça

Cortejo Tercendo Esperanças no Sertão percorre as ruas de Angicos
Angicos mais uma vez se transformou em território de memória, resistência e esperança. Durante dois dias, a cidade reviveu sua ligação histórica com o educador Paulo Freire na realização do II Seminário Paulo Freire, promovido pelo Memorial da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), entre os dias 17 e 18 de setembro.
O evento foi marcado pelo envolvimento da comunidade, pela presença de pesquisadores e pelo entusiasmo dos participantes, que definiram o encontro como um verdadeiro sucesso.
A abertura, na quarta-feira (17), já deu o tom da programação. O Cortejo Cultural: Tecendo Esperanças no Sertão levou música, cores e celebração pelas ruas centrais de Angicos. Banda de música, desfile cívico e até um boneco gigante com o rosto de Paulo Freire mobilizaram moradores e visitantes.
“Foi muito bonito ver o cortejo cultural tomando as ruas de Angicos, as pessoas se interessando, a gente dando visibilidade a Paulo Freire, ao resgate da história e das memórias dos ex-alunos. Todas as atividades do seminário foram consideradas um sucesso pela comissão organizadora, com muita participação da comunidade”, avaliou a professora Juliana da Rocha, coordenadora do Memorial Paulo Freire.

Reitor da Ufersa, Rodrigo Codes, abre II Seminário Paulo Freire numa solenidade prestigiada por autoridades políticas e educacionais/Foto: Eduardo Mendonça
ABERTURA – Após o cortejo cultural pelas ruas de Angicos, a abertura do II Seminário Paulo Freire foi realizada na área externa do Memorial Paulo Freire, numa solenidade que reuniu representantes da Ufersa, do poder público e da sociedade civil em torno do descerramento do busto do educador, doado pela secretária de Educação do Estado, professora Socorro Batista, que também integra o quadro docente da instituição.

Professor Rodrigo Codes, reitor da Ufersa/Foto: Eduardo Mendonça
O reitor da universidade destacou a importância de o seminário acontecer em meio a dias de tantas celebrações. “Após dois dias de intensas comemorações, iniciadas com a graduação de 67 novos profissionais pela Ufersa Angicos e com os 20 anos da transformação da nossa instituição em Universidade, estamos nesta noite participando da abertura desse importante Seminário que marca a presença de Paulo Freire no Rio Grande do Norte, um marco na história da educação brasileira”.

Professor Socorro Batista, secretária de educação do RN/Foto: Eduardo Mendonça
Para a secretária Socorro Batista, o busto inaugurado no Memorial carrega mais que forma e matéria. “Ele possui uma simbologia muito grande. O busto, o memorial, a pintura, o seminário, a força da resistência. Mas não é só a resistência, é também uma educação que nos represente que traduza os sonhos da maioria da população. É a resistência pela busca da dignidade humana, que não se faz apenas com a educação”.

Professora Teresa Baracho, Secretária de educação de Angicos/Foto:
A secretária municipal de Educação, Teresa Baracho, ratificou a importância de Angicos vivenciar cada vez mais o legado Freireano. “A cada dia que se passa, nós vemos Paulo Freire sendo vivenciado em nosso município. Esse compromisso com a educação é uma educação que se entrelaça com afeto, compromisso e querer fazer”.

Divaneide Basílio, deputada estadual/Foto: Eduardo Mendonça
A deputada estadual Divaneide Basílio destacou a ousadia de trazer Paulo Freire para as ruas de Angicos. “Colocar Paulo Freire na rua não é só uma ousadia, mas é um presente para a sociedade. Um símbolo de compromisso com a educação popular e com a nossa universidade”.
O diretor do Campus Angicos, professor Samuel Oliveira, aproveitou o momento para registar a presença de participantes vindos de diferentes cidades e até de outros estados. “Esse Seminário traz vida para dentro do Memorial e ficamos muito felizes com essa adesão”.

Professora Juliana Rocha, coordenadora do Memorial Paulo Freire/Foto: Eduardo Mendonça
ANFITRIÃ – Coube à professora Juliana Rocha, coordenadora do Memorial e do Seminário, emocionar ainda mais a cerimônia. Para ela, o encontro simboliza a concretização de um sonho coletivo. “Esse momento aqui foi longamente esperado. Foi construído com muita dedicação, com esperança e, sobretudo, com o desejo profundo de fazer da memória de Paulo Freire um farol vivo em nossas práticas e em nossos sonhos. O tema deste segundo seminário não foi escolhido por acaso: ‘104 anos tecendo inéditos viáveis, sonhos coletivos e esperanças libertadoras’. Ele traduz a essência do que desejamos vivenciar aqui”, afirmou.
A coordenadora fez questão de lembrar que o evento nasceu sem recursos financeiros, mas com a força do engajamento coletivo: “Esse evento nasceu sem recursos, mas muito rico em algo muito mais precioso: a boa vontade, a disposição e a coragem do nosso Núcleo de Estudos Freireanos. Os números confirmam nossa força, 427 pessoas inscritas. Esse número não é apenas um número, é um sinal de que o Memorial Paulo Freire tem sim peso e relevância em Angicos e em todo o sertão central”.
Entre discursos, homenagens e a inauguração do busto, a abertura do II Seminário reafirmou a presença viva de Paulo Freire no sertão potiguar — em Angicos, cidade berço de sua pedagogia libertadora.
Vasta programação agradou participantes do Seminário

Exposição instalada no Memorial: Angicos o chão onde a esperança escreveu seu nome é uma das atrações do Seminário Paulo Freire/Foto: Eduardo Mendonça
A programação se estendeu pela quinta-feira (18), com atividades no Memorial Paulo Freire e em espaços públicos da cidade. O seminário trouxe exposições, oficinas, palestras e conferências. No Memorial, a mostra fotográfica “Angicos: o chão onde a esperança escreveu seu nome” resgatou, por meio de imagens, a experiência pioneira das 40 Horas de Angicos.

Encontro com os alunos participantes da experiência 40 Horas de Angicos/Foto: Eduardo Mendonça
O diálogo com essa memória se tornou ainda mais emocionante durante o Café Cultural, quando ex-alunos do histórico programa de alfabetização puderam compartilhar suas vivências com os participantes.
O estudante de Pedagogia e bolsista do Memorial, João Victor de Souza, destacou a realização pessoal de participar da organização do evento: “Foi um momento de muita emoção, de muita satisfação. O seminário nasce com esse objetivo de aproximar, de tornar realidade planos e sonhos que ainda não existem. Encerramos com a sensação de realização enquanto comissão”.

Oficinas promovem troca de saberes/Foto: Eduardo Mendonça
As oficinas também garantiram um espaço de troca de saberes. A artesã Ana Raimunda da Silva, responsável pela atividade sobre medicina popular, falou com emoção sobre a experiência: “Abordei a produção de garrafadas, lambedor, óleo de coco, tudo feito com ervas medicinais. Tivemos uma participação maravilhosa. Para mim, foi tudo na minha vida. Uma bênção”.

Experiência das 40 Horas de Angicos documentada em livro/Foto: Eduardo Mendonça
Outro destaque foi a apresentação do livro “40 Horas de Angicos: memórias dos alunos de Paulo Freire no RN”, editado pela equipe de comunicação da Ufersa. A experiência foi discutida em uma roda de conversa com os ex-alunos das 40 Horas, mediada pelo jornalista Passos Júnior, um dos autores do livro.

Professor Valdo Cavalet, da UFPR, ressalta o potencial do Seminário Paulo Freire, realizado pela Ufersa Angicos/Foto: Eduardo Mendonça
Várias partes do Brasil atraem olhares atentos e contribuições sobre o legado do educador Paulo Freire. O professor Valdo Cavalet, da UFPR, ressaltou a dimensão nacional que o seminário vem alcançando: “Eu estou muito impressionado. Houve um salto de qualidade enorme em relação ao primeiro seminário. O cortejo cultural mobilizou a cidade inteira, sem contradições, apenas curiosidade e receptividade da população. Esse seminário já se projeta como um evento para a história, com potencial para se tornar uma atividade institucional de máxima importância para a educação”, considerou Cavalet.

Conferências com temáticas freireanas lotam o auditório do Memorial Paulo Freire/Foto: Eduardo Mendonça
A programação foi diversificada e contou com 427 inscritos, além da presença marcante da comunidade local. Oficinas cheias, conferências lotadas e a participação de artesãos e mestres da cultura popular mostraram a força do evento. “Conseguimos abraçar a comunidade, trazer para perto os fazedores de cultura, que era um dos grandes objetivos do seminário”, reforçou a professora Juliana.
O encerramento aconteceu em praça pública, com uma noite cultural e cine debate. O documentário Fonemas da Liberdade foi exibido ao ar livre, seguido da apresentação do Teatro do Oprimido e de tocadores de viola, em um clima de feira cultural.
Para o diretor do Campus Angicos, professor Samuel Azevedo, O II Seminário Paulo Freire conseguiu resgatar não só a memória de Paulo Freire, mas resgatar ao conhecimento do público a classe de artesãos e artistas de Angicos. “A feirinha na praça encheu os olhos de alegria e novidade, pois entre artistas e artesãos locais já conhecidos também apresentaram seus trabalhos muitos artesãos que não são vistos em outras feiras de artesanato, estas pessoas e seus trabalhos estavam escondidas, e muitos de nós não tinham conhecimento que aqui em Angicos havia tanta variedade e qualidade de trabalhos”, afirmou o diretor Samuel.
Entre ruas, praças, salas e memórias, o II Seminário Paulo Freire reafirmou Angicos como símbolo de um projeto de educação que ainda inspira gerações. E, como adiantam os organizadores, a expectativa já se volta para a próxima edição: “Terminamos esse evento muito felizes e recebendo uma injeção de ânimo imensa para o terceiro seminário Paulo Freire”, concluiu Juliana da Rocha.
Mural com arte popular embeleza a entrada do Memorial Paulo Freire

Prédio do Memorial Paulo Freire ganha mural pintado por artista angicano resgatando o maior compromisso do educador; o amor/Foto: Eduardo Mendonça
A entrada do Memorial Paulo Freire, em Angicos, ganhou novas cores e símbolos da identidade nordestina com a pintura assinada pelo artista plástico José Marcos Rodrigues, conhecido como Marquinhos. O mural, que retrata a imagem de Paulo Freire em meio à paisagem típica do semiárido potiguar, foi uma encomenda feita pela professora Juliana Rocha e rapidamente abraçada pelo artista.
“Quando recebi o desafio, fiquei muito feliz, porque foi uma demonstração do meu trabalho. Agradeço a confiança, a admiração e o respeito que sempre tiveram pela minha arte. Foi uma satisfação muito grande realizar essa pintura, ver a repercussão que está tendo e poder contribuir para deixar mais bonito o Memorial Paulo Freire”, afirmou Marquinhos.
A criação nasceu da liberdade que lhe foi dada: “Perguntei a Juliana qual seria a temática, e ela disse que eu poderia usar a minha criatividade. Então escolhi a imagem de Paulo Freire com um cenário que remetesse ao Nordeste: a vegetação, o Pico do Cabugi, a nossa terra de Angicos. Também incluí uma frase marcante dele, que é símbolo do seu legado”, explicou o artista.
Escultor por formação, José Marcos se consolidou no trabalho com entalhe em madeira e pirografia, mas recentemente tem migrado para a pintura mural. A mudança, segundo ele, foi fruto tanto da demanda quanto do desejo de expandir sua expressão artística: “Aqui a cidade é pequena, e nem sempre a escultura tem saída. Aos poucos comecei a pintar e vi que havia espaço. Estou aprendendo mais a cada dia, e esse trabalho no Memorial é uma prova dessa evolução”, concluiu. Com a obra, a identidade popular da arte de Marquinhos passa a dialogar de forma permanente com a memória viva de Paulo Freire, embelezando e fortalecendo a relação entre o educador e a cidade que marcou sua história.