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Comunicação

Em Angicos, memória e diálogo aproximam gerações do legado de Paulo Freire

Campus Angicos 25 de setembro de 2026. Visualizações: 80. Última modificação: 25/09/2026 07:22:27

 

 

 

Cconversa foi mediada pela professora Nilcéa Lemos Pelandré, que retornou a Angicos 30 anos depois de realizar sua pesquisa sobre a experiência/Foto: Eduardo Mendonça

Mais de seis décadas depois da experiência das 40 Horas de Angicos, a memória daqueles dias voltou a ocupar o centro do diálogo entre gerações. Nesta quinta-feira, 24, ex-alunos de Paulo Freire encontraram professores, estudantes e integrantes da comunidade acadêmica durante o III Seminário de Paulo Freire, no Campus Angicos da UFERSA.

A conversa foi mediada pela professora Nilcéa Lemos Pelandré, que retornou a Angicos quase 30 anos depois de realizar sua pesquisa sobre a experiência. Para ela, reencontrar os ex-alunos representa uma oportunidade de manter viva e atualizada não apenas a memória de Paulo Freire, mas seu legado educacional e cultural. “É o legado da educação com amor, da educação pelo diálogo, de uma educação que quer realmente transformar o ser humano, tornar o ser humano mais humano”, afirmou.

Participantes ainda guardam na memória uma experiência que durou poucas horas//Foto: Eduardo Mendonça

Na avaliação da professora, o encontro ganha ainda mais significado porque permite observar, nas histórias dos próprios participantes, os efeitos concretos da proposta de Paulo Freire. Para ela, os ex-alunos são testemunhas vivas de uma educação que ultrapassou o aprendizado da leitura e da escrita.

Nilcéa destacou que, mesmo depois de tantos anos, os participantes ainda guardam na memória uma experiência que durou poucas horas. “Foi tão significativa, que, apesar de passar tanto tempo, eles se lembram”, afirmou.

A professora lembrou uma fala de Dona Luzia, que sintetiza a dimensão humana e social daquela experiência. Segundo Nilcéa, a ex-aluna disse que Paulo Freire não apenas ensinou os pobres a ler e escrever, mas fez com que eles percebessem “que éramos gente, que éramos pessoas, que tínhamos direitos também”.

Auditório lotado para ouvir a experiência das 40 Horas/Foto: Eduardo Mendonça

A alfabetização, nesse sentido, abriu outras possibilidades. Escrever o próprio nome, o nome da mãe e dos filhos, ler uma conta de luz ou uma notícia eram conquistas que se somavam à descoberta da cidadania, da possibilidade de votar, questionar e interferir na realidade.

“Empoderou as pessoas”, resumiu Nilcéa. Para ela, esse empoderamento ocorreu “no sentido do bem, do questionamento, da democracia, de abrir as coisas, da gente estar aberto para o mundo, para ler o mundo e entender a nossa história”.

É justamente essa capacidade de permanecer atual que, segundo a professora, mantém Paulo Freire presente para as novas gerações. “Ele foi muito além do seu tempo”, afirmou. Por isso, defende que os estudantes não apenas conheçam sua teoria, mas a relacionem com o mundo de hoje.

Memórias que continuam ensinando

“Éramos gente”, diz Luzia Andrade/Foto: Eduardo Mendonça

Entre os participantes do encontro estava Dona Eneida. Aos seis anos, ainda criança, ela acompanhou a experiência e decidiu que seria professora ao observar a monitora que atuava em seu ciclo. “Alimentei o sonho, realizei o sonho. Sou professora. Hoje aposentada, mas continuo professora”, contou.

A experiência também deixou marcas na forma como ela compreende a cidadania. Questionada sobre a participação nas eleições, lembrou que aprendeu no ciclo de cultura a importância de exercer esse direito. Por razões de saúde e por ter uma cirurgia marcada para o dia 30, talvez não possa votar desta vez. Mas deixou um conselho: enquanto houver possibilidade, as pessoas devem continuar exercendo o direito de votar e saber escolher.

Aos 90 anos, Dona Luzia também voltou a falar sobre o que aprendeu. “Na minha vida, o que representou e o que eu não sabia, hoje eu sei. Aprendi a fazer meu nome, já sei ler algumas coisas”, afirmou. Mesmo com as limitações da idade e da visão, ela fez questão de responder sobre a eleição. “Nada disso. Quem vai votar sou eu. Quem vai votar certo.”

O encontro também foi marcado pela emoção de Seu Paulo Souza, que destacou o carinho recebido da comunidade acadêmica. Para ele, estar novamente na UFERSA falando sobre sua experiência foi “muito gratificante”. A presença de um neto na Universidade tornou o momento ainda mais especial. Ao falar aos jovens, Seu Paulo lamentou que muitos não deem à educação a importância que ela merece e defendeu o comprometimento com a escola como caminho para uma vida diferente.

Oficinas aproximam conhecimento, arte e experiência

A programação do III Seminário de Paulo Freire também abriu espaço para atividades práticas e de criação, reunindo participantes em diferentes oficinas. Entre elas esteve a oficina de xilogravura, que teve a participação da professora Graça Carneiro, integrante da caravana da Secretaria de Estado da Educação da Paraíba. Para ela, a atividade proporcionou uma experiência nova, marcada pela participação direta na construção do trabalho.

Oficina de Xilogravura/Foto: Eduardo Mendonça

“Ele botou a gente pra botar a mão na massa”, afirmou, referindo-se ao professor responsável pela oficina. A experiência, segundo Graça, acrescentou novos conhecimentos ao que já sabia e resultou em um trabalho que considerou “brilhante”, “maravilhoso” e “bacana”.

Participante do III Seminário, ela também destacou o significado de estar em Angicos para discutir o legado de Paulo Freire. “Um encontro, um reencontro com tudo que Paulo Freire nos representa e que a gente é representatividade de tudo que ele deixou. Memórias é o que eu levo, é o que eu dou. É o que eu estou vivendo aqui. Gratidão!”, declarou.

Além da xilogravura, o seminário contou com oficinas de criação de jogos, capoeira e maculelê, cultivos de ervas medicinais, desenhos, pinturas em tecidos e pintura em telas, entre outras atividades.

Livros registram memórias, conhecimentos e o legado de Angicos

O III Seminário de Paulo Freire também foi espaço para o lançamento de livros, com sessão de autógrafos. As obras ampliam as possibilidades de registro, reflexão e circulação do conhecimento relacionado à experiência de Angicos e à educação.

Lançamentos de livros sobre as 40 Horas de Angicos/foto: Eduardo Mendonça

Foram lançados “40 Horas de Angicos: memórias dos alunos de Paulo Freire no RN”, de Higo Lima, Passos Júnior e Renata Jaguaribe; “Matemática para pedagogos: propostas de atividades das quatro operações”, de Walter Martins, Franceliza Monteiro e João Batista Rodrigues; “Alfabetização filosófica: Re-invenção de Angicos em Pau dos Ferros (RN)”, de Carlineide Almeida; e “Lendo o Mundo: as 40 horas de Angicos e o legado vivo de Paulo Freire”, de Micaela Ovelar.

Entre as memórias dos antigos alunos, as oficinas e os novos livros, o seminário reafirma que a experiência de Angicos não pertence apenas ao passado. Ela continua sendo lembrada, estudada, recriada e, sobretudo, vivida no encontro entre pessoas e gerações.

Lendo o Mundo é exibido em prça pública/Foto: Eduardo Mendonça

Outro ponto alto do dia aconteceu no encerramento com a exibição em praça pública de Angicos, o documentário premiado no Festival de Gramado de 2025, Lendo o Mundo, com direção da cineasta americana: Catherine Murphy e Iris de Oliveira. Na ocasião, a diretora dedicou o documentário aos alunos e alunas das 40 Horas de Angicos. O filme contou com a colaboração da equipe de comunicação da UFERSA que cedeu trechos do documentário 40 Horas na Memória, produzido pela Universidade em 2023. Para o jornalista Passos Júnior integrar um projeto premiado nacionalmente faz com que a equipe da ASSECOM UFERSA se sinta também premiada, bem como a cidade de Angicos, berço da gênese da obra de Paulo Freire.