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Estudo mapeia dinâmica da infecção dos fungos que apodrecem o melão e causam prejuízos a produtores

Ciência, Pesquisa, Publicações 16 de julho de 2026. Visualizações: 295. Última modificação: 16/07/2026 16:18:05

O melão brasileiro atravessa o oceano em navios refrigerados, mas é comum que muitos apodreçam antes de alcançar as prateleiras europeias. Esse cenário preocupante motivou pesquisadores da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) e do The Connecticut Agricultural Experiment Station (CAES/EUA) a mapear o avanço silencioso do gênero de fungos Fusarium. Entre as 14 espécies identificadas na região, o estudo destaca o F. pseudensiforme, um organismo agressivo ao meloeiro que também possui registros médicos de infecção em seres humanos, com o sistema de defesa fragilizado.

Capa da revista Plant Pathology com foto da pesquisa mostrando os sintomas clássicos da podridão por Fusarium em frutos de melão amarelo da variedade Goldex, inoculados com diferentes espécies desse fungo que é o causador de grandes prejuízos para a cultura – Imagem: Revista

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os estados do Ceará e do Rio Grande do Norte respondem por mais de 77% da produção nacional da fruta, mas enfrentam perdas financeiras quando os sintomas da doença surgem na pós-colheita. A investigação conduzida em Mossoró pela pesquisadora Maria Costa, sob a orientação dos professores Márcia Ambrósio, do Departamento de Ciências Agronômicas e Florestais da Ufersa, e Washington da Silva, do Department of Plant Pathology and Ecology da CAES, com apoio de outros sete pesquisadores, demonstra que o meloeiro sofre uma invasão silenciosa durante todo o seu desenvolvimento.

O trabalho foi publicado na revista Plant Pathology, um dos periódicos científicos mais conceituados internacionalmente na área. O impacto do estudo foi tão significativo que uma fotografia produzida a partir dos experimentos do grupo foi selecionada para estampar a capa da edição de julho–agosto de 2026 do periódico.

Embora a ciência acreditasse que a infecção no fruto ocorresse durante a colheita, os dados provam que o fungo penetra principalmente pelas raízes e pode atingir outras estruturas da planta. O processo funciona como a entrada por um porão, de onde o invasor sobe pelas paredes da estrutura vegetal. Os cientistas monitoraram as plantas sob o calor de 33 graus Celsius do Nordeste, mas identificaram que o problema surge já no berçário das mudas.

O grupo analisou sementes e substratos e perceberam que, enquanto as sementes permanecem limpas devido ao tratamento químico prévio, o substrato utilizado na produção das mudas apresentou contaminação. Esse material funciona como um cavalo de Troia que introduz o invasor na lavoura. Isso permitiu que a pesquisa registrasse, pela primeira vez em território brasileiro, a presença da espécie F. silvicola, um fungo que provavelmente viaja nesses substratos importados e pode ameaçar a produção de melão na região.

Melões da variedade Goldex exibem sintomas de podridão após a inoculação com 14 diferentes espécies do fungo

Conforme descrito na pesquisa, a infecção atinge até a floração durante seu auge. As flores femininas são alvos frequentes devido à presença generosa de néctar, que atrai polinizadores mas que também serve de alimento para os microrganismos. Nessas condições, o melão já nasce com o fungo em seu primórdio, fenômeno esse que explica a manifestação tardia da podridão durante o transporte internacional.

A diversidade desses invasores inclui o grupo FSSC, sigla para o Complexo de Espécies de Fusarium solani, que reúne as variantes mais agressivas encontradas no solo. O F. pseudensiforme é um dos que atuam como patógeno oportunista, ou seja, organismos que aproveitam brechas no sistema de defesa da planta para atacá-la. Além de causar danos severos aos frutos, essa espécie associa-se a infecções pulmonares graves em pacientes imunocomprometidos, como pessoas que passaram por transplantes.

Para proteger a economia e a saúde pública, os pesquisadores propõem o manejo integrado das lavouras. Essa estratégia combina diversas técnicas de controle e sugere que os produtores utilizem também agentes de biocontrole como o Trichoderma e o Bacillus. Esses microrganismos funcionam como soldados biológicos que combatem os fungos nocivos e reduzem o potencial de inóculo presente no ambiente. A ciência agora busca formas de blindar as flores no campo para reduzir os danos contribuindo para que o melão chegue íntegro e seguro à mesa do consumidor.