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Comunicação

União digital de observadores de pássaros vira escudo para a Mata Atlântica

Pesquisa, Pós-graduação, Publicações, Responsabilidade Social 7 de maio de 2026. Visualizações: 76. Última modificação: 07/05/2026 14:01:24

O esforço para monitorar a biodiversidade brasileira ganhou um aliado onipresente e de baixo custo que está revolucionando a conservação ambiental no país. Ao transformar smartphones em sensores biológicos, uma rede de voluntários de todo o país formou o que os pesquisadores chamam de ciência cidadã, um modelo de investigação que democratiza a coleta de dados e permite mapear áreas que expedições acadêmicas tradicionais raramente conseguem alcançar. 

Liderado pelo biólogo Lucas Rodriguez Forti, pesquisador e bolsista de desenvolvimento científico e tecnológico regional da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), estudo publicado na revista Wildlife Research, da CSIRO Publishing, confirmou que a força da conservação atual reside na diversidade de ferramentas digitais. O trabalho, que reuniu pesquisadores da Ufersa, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Charles Darwin University, na Austrália, revela que cada plataforma atrai perfis diferentes de entusiastas que, juntos, compõem o mapeamento mais abrangente já realizado das espécies ameaçadas.

Entusiastas utilizam dispositivos digitais para documentar espécies da fauna brasileira e expandir o mapeamento da biodiversidade – Foto: Lucas Pezeta – Pexels

Os cientistas examinaram a ocorrência de 218 espécies de aves que existem exclusivamente na Mata Atlântica através de cinco grandes plataformas de registros, as globais eBird e iNaturalist e as brasileiras WikiAves, Biofaces e Táxeus. O levantamento processou mais de 1,2 milhão de observações acumuladas ao longo de décadas e revelou uma dinâmica curiosa na qual a integração total dos dados foi a única maneira de atingir a representatividade e o mapeamento de 100% dessas aves. Esse fenômeno ocorre porque as plataformas funcionam como ecossistemas distintos onde quase não há sobreposição de usuários, visto que menos de 2% dos observadores utiliza mais de um aplicativo para registrar suas descobertas no campo.

A pesquisa demonstrou que as ferramentas possuem personalidades próprias que influenciam a qualidade e o tipo de informação coletada. O WikiAves se consolidou como o gigante nacional por possuir a maior distribuição geográfica entre os municípios brasileiros, embora seus dados sejam registrados apenas por cidade e não por coordenadas exatas. Por outro lado, o Biofaces surgiu como uma surpresa estratégica no estudo. Mesmo com um grupo de apenas 524 usuários, alcançou a maior cobertura individual de espécies. Esse desempenho sugere que a plataforma atrai especialistas dedicados a buscar animais raros ou difíceis de encontrar, preenchendo lacunas que os observadores casuais de outros aplicativos poderiam ignorar.

Pequenas aves nativas compõem o ecossistema urbano e geram registros vitais em plataformas de monitoramento ambiental – Foto: Guilherme Bazilio – Pexels

A estrutura dessas redes de interação entre humanos e aves segue padrões que os cientistas descrevem como aninhamento, um conceito que pode ser comparado ao funcionamento de bonecas russas. Nessa organização, os observadores iniciantes registram as aves mais comuns e fáceis de detectar, criando uma base sólida de dados, enquanto os chamados super-observadores adicionam camadas de complexidade ao registrar tanto os animais frequentes quanto as espécies mais raras. O estudo confirmou a aplicação da regra de Pareto nesse cenário, onde uma elite de apenas 20% dos entusiastas mais dedicados é responsável por carregar o piano da pesquisa, gerando 86% de todos os registros. Esse grupo é essencial por registrar espécies raramente observadas, compensando o fato de que quase um quarto dos voluntários contribui com apenas uma única observação na vida.

Apesar do sucesso dessa mobilização digital, o mapa da biodiversidade brasileira ainda apresenta vazios silenciosos que preocupam os conservacionistas. Os dados revelam que cerca de 38% dos 3.416 municípios inseridos no bioma da Mata Atlântica não possuem um único registro georreferenciado sequer. Embora o WikiAves ajude a cobrir o território de forma ampla, a ciência ainda carece de dados com coordenadas de GPS precisas nessas áreas para criar modelos de proteção mais eficazes. Essas regiões desassistidas pela vigilância voluntária são justamente os locais onde novos observadores são mais necessários para expandir o esforço de monitoramento e garantir que nenhuma espécie desapareça sem ser documentada.

A presença de espécies nativas em diferentes biomas mobiliza uma rede de voluntários espalhada por todo o país – Foto: Jeferson Martins – Pexels

A conclusão do estudo reforça que a eficiência da ciência cidadã não depende apenas da quantidade de dados, mas da capacidade de fazer com que diferentes comunidades digitais conversem entre si. Os autores recomendam que os registros feitos em todas as plataformas sejam integrados a bases globais como o Global Biodiversity Information Facility para que a informação saia dos aplicativos e chegue às mãos de quem formula políticas públicas. Ao incentivar que diferentes perfis de pessoas ocupem a floresta com seus celulares, a ciência garante um fluxo de informações vital para a sobrevivência da fauna em um dos biomas mais fragmentados e pressionados do planeta.

O estudo, publicado na revista Wildlife Research, foi selecionado pela curadoria internacional BioOne Vista (coleção “Our Power, Our Planet”) por demonstrar como a integração de diferentes plataformas de ciência cidadã amplia a escala e a eficiência no monitoramento da biodiversidade. Segundo o pesquisador Lucas Rodriguez Forti, a integração dessas plataformas democratiza a produção do conhecimento, tornando-a mais inclusiva e essencial para enfrentar a crise da biodiversidade.