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Comunicação

Ufersa e governo inauguram primeira Lavanderia Comunitária e Agroecológica da América Latina

Extensão, Gestão, Inovação, Meio Ambiente, Pesquisa, Pós-graduação, Responsabilidade Social, Tecnologia 14 de abril de 2026. Visualizações: 81. Última modificação: 14/04/2026 15:49:26

Uma ação que une sustentabilidade e fortalece a política de cuidado. Esse é um resumo simples, mas verdadeiro do projeto Lavanderia Comunitária e Agroecológica, inaugurado nesta segunda-feira, 13, no assentamento Mulunguzinho, em Mossoró, em um evento bastante concorrido. O grupo de mulheres Decididas a Vencer, responsável pela gestão da iniciativa, junto com a comunidade, recebeu autoridades e convidados em uma celebração que contou com a presença da ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, da governadora Fátima Bezerra, do reitor da Ufersa, Rodrigo Codes, além de deputados, vereadores e diversas lideranças locais e regionais.

Liderado pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), por meio da Fundação Guimarães Duque (FGD), sob coordenação dos professores Nildo da Silva Dias e Miguel Ferreira Neto, ambos do Departamento de Ciências Agronômicas e Florestais (DCAF), a Lavanderia Sustentável e Agroecológica é a primeira iniciativa desta natureza na América Latina. Além de Mulunguzinho, serão instaladas unidades nos assentamentos Arizona, em São Miguel do Gostoso, e Lagoa Nova, em Riachuelo, bem como na Agrovila Tabuleiro Alto (Santa Maria), em Ipanguaçu, contabilizando quatro unidades no RN, além de outras duas no Ceará e duas no Piauí.

Descerramento da placa que inaugurou a Lavanderia Comunitária e Ecológica. Da direta para a esquerda: reitor Rodrigo Codes, governadora Fátima Bezerra, ministra Fernanda Machiaveli e a Secretária Executiva do Ministério das Mulheres, Thalia Barbosa – Foto: Paiva Rebouças – Assecom/Ufersa

A iniciativa, que leva o nome da ativista feminista Nalu Faria, nasce da luta da Marcha Mundial das Mulheres e se concretiza por meio de um projeto mais amplo, com investimento superior a R$ 5 milhões. São R$ 3,6 milhões do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e R$ 1,5 milhão do Ministério das Mulheres, por meio da Secretaria das Mulheres Rurais. A ação recebe ainda apoio do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) e do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, através da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural e da Agricultura Familiar (SEDRAF).

O projeto possui quatro instalações principais: três máquinas profissionais de lavar roupa com copa, banheiro e brinquedoteca. Diferente de uma lavanderia comum, o modelo sustentável e agroecológico integra práticas de economia solidária e preservação ambiental, como o uso de energia solar para funcionamento das máquinas, o reaproveitamento da água tratada na produção agrícola, a integração com atividades produtivas locais e, sobretudo, a gestão coletiva realizada por mulheres da comunidade.

Reitor Rodrigo Codes durante visita às máquinas profissionais da lavanderia – Foto: Paiva Rebouças – Assecom/Ufersa

Segundo Maria de Fátima da Silva Soares, beneficiária da Lavanderia, a iniciativa representa um avanço importante para a comunidade. Moradora do assentamento Mulunguzinho e produtora da unidade de copos de fruta, ela relata que o projeto também fortalece a produção agroecológica local. “De maneira sublime, essa lavanderia melhora nosso dia a dia. Enquanto a roupa está lavando, conseguimos dar continuidade ao trabalho na unidade ou até conversar um pouco, algo que muitas vezes não temos tempo para fazer. Assim, conseguimos assimilar uma coisa com a outra”, afirmou.

Maria de Fátima complementou ainda que o reaproveitamento da água é um dos pontos mais relevantes da iniciativa. “A água utilizada na lavanderia será destinada às fruteiras do nosso projeto produtivo. Já temos árvores plantadas e essa água vai contribuir para a irrigação delas”, explicou.

Eliana Maria, presidente do assentamento Mulunguzinho, explica que a Lavanderia será administrada coletivamente pelo grupo de mulheres da comunidade e que já existe um regimento interno para definir regras de funcionamento, taxa de uso e organização da agenda de lavagem de roupas, que será feita por meio de marcação em grupo de WhatsApp. “A lavanderia vai ser auto-gestionada pelo grupo. Nós é que vamos administrar, cuidar de toda a funcionalidade dela. As pessoas vão ligar, marcar horário e, enquanto lavam roupa, podem deixar as crianças na brinquedoteca. Além disso, estamos planejando o reuso da água para uma produção coletiva de frutíferas, após análise feita pela universidade”, afirmou.

Lavanderia Comunitária é também um instrumento que fortalece a Política de Cuidados do governo – Foto: Paiva Rebouças – Assecom/Ufersa

Eliana ponderou que, inicialmente, apenas os moradores do assentamento terão acesso ao serviço, em caráter experimental. “Nós temos cerca de 280 pessoas na comunidade e vamos avaliar a capacidade das três máquinas, ver se dão conta da demanda e se as pessoas se adaptam. Depois, havendo disponibilidade, poderemos abrir para comunidades vizinhas”, explicou. A presidente também comentou sobre a importância da formação para uso dos equipamentos. “Já tivemos uma capacitação inicial com técnicos e, à medida que as pessoas forem utilizando, receberão orientação, até terem autonomia suficiente para usar sem precisar de acompanhamento”, disse.Para Eliana, o impacto será significativo na vida das mulheres. “O que vai mudar é porque vai reduzir o tempo de lavar roupa. Esse tempo poderá ser usado para descansar, socializar, participar de reuniões, oficinas e debates. É um equipamento público, uma política do Governo Federal chegando na ponta. A expectativa é que dê certo, e vai dar certo, porque tudo que o grupo de mulheres aqui faz dá certo, já que temos auto-organização”, asseverou.

Equipe da Ufersa durante evento de inauguração da Lavanderia – Foto: Paiva Rebouças – Assecom/Ufersa

Extensão e realização

Miguel Ferreira Neto, vice-coordenador do projeto Lavanderia Sustentável e Agroecológica, enfatizou que a iniciativa representa um marco importante ao aproximar a academia das comunidades rurais. O professor reforçou que a Ufersa e a FGD oferecem suas expertises para atender às demandas do semiárido. “É muito positivo trazer a instituição para quem mais precisa no campo, principalmente voltada para essa condição de transformação com tecnologia. Tudo foi pensado de forma detalhada, a academia se entrelaça com aqueles que mais precisam e entrega um objeto como é a lavanderia agroecológica coletiva”, afirmou.

Sobre os próximos passos, Miguel explicou que será necessário testar a tecnologia e avaliar a qualidade da água reutilizada da lavanderia. “Precisamos ter certeza de que essa água pode ser usada novamente no processo produtivo sem riscos para a saúde humana ou dos animais”, disse. O vice-coordenador reforçou que estão previstas oito novas lavanderias. “No Rio Grande do Norte teremos mais três unidades: em Ipanguaçu, Riachuelo e São Miguel do Gostoso. No Ceará, duas, em Madalena e Chorozinho. No Piauí, outras duas, em Flores e Batalha. Havia uma previsão para a Paraíba, mas ainda depende de articulação com movimentos sociais e governo estadual”, relatou.

A estimativa é beneficiar entre 500 e 600 pessoas diretamente no RN, podendo alcançar cerca de 4 mil pessoas em todas as unidades, considerando as famílias envolvidas. “A proposta inicial era que cada comunidade tivesse pelo menos 70 famílias organizadas. Algumas têm mais de 150, então esse número é flutuante, mas a expectativa é bastante significativa”, disse. Miguel intensificou que a gestão será feita pelas próprias mulheres da comunidade. “Quem vai decidir quem pode usar, quanto será cobrado e como funcionará o acesso é a organização local. Nós apenas orientamos, mas não interferimos. Esse protagonismo é essencial para o sucesso do modelo”, concluiu.

Protagonismo feminino na fala das autoridades

Tendas, cadeiras e um enorme palco para autoridades e convidados mudaram a rotina do assentamento Mulunguzinho nesta segunda-feira, 13, durante a inauguração da primeira Lavanderia Sustentável e Agroecológica da América Latina. Com transmissão realizada pelo YouTube do MDA, a solenidade ouviu as vozes da comunidade, mas também das autoridades convidadas para o evento. 

O reitor da Ufersa, Rodrigo Codes, parabenizou o professor Nildo Dias, vice-reitor da Ufersa e coordenador do projeto, além de toda a equipe da universidade envolvida, pela dedicação ao projeto. “Hoje celebramos muito mais do que a entrega de um equipamento, celebramos a materialização de uma luta coletiva, construída com coragem, persistência e esperança”, afirmou. Também ressaltou que, mesmo após a entrega, a Ufersa continuará acompanhando o desenvolvimento da iniciativa. “É importante monitorar o efluente tratado para que possa ser utilizado com segurança, avaliar os impactos da água na produção e no solo e quantificar os resultados. Tudo isso será feito por pesquisadores da Ufersa”, confirmou.Para o reitor, trata-se de um avanço concreto na promoção de tecnologias sociais comprometidas com a justiça ambiental, a dignidade do trabalho e a autonomia das mulheres do campo. Rodrigo Codes lembrou que o projeto funcionará como um laboratório vivo para pesquisas em diversas áreas do conhecimento, como Engenharia, Agronomia, Gestão Ambiental, Sociologia e outras. “Como universidade pública, reafirmamos nosso compromisso de produzir conhecimento e fortalecer iniciativas que integrem ciência, tecnologia e saberes populares, sempre com o olhar voltado para a transformação social. Que esta lavanderia seja mais do que um equipamento, que seja um símbolo de dignidade, de autonomia e de futuro”, completou.

Reitor Rodrigo Codes durante discurso na inauguração da Lavanderia Comunitária de Mulunguzinho – Foto: Paiva Rebouças – Assecom/UFRN

A ministra do MDA, Fernanda Machiaveli, lembrou que o projeto integra a política nacional de cuidados e o programa Cidadania e Bem Viver. “Queremos ver as mulheres prosperando na produção, gerando alimento saudável para nossas famílias, mas também usufruindo do bem viver, aproveitando melhor o tempo para cuidar de si, das comunidades e das famílias”, disse. A ministra destacou ainda que as lavanderias funcionam em parceria com universidades e que a meta é expandir o modelo para outros assentamentos. “Queremos que elas tenham acesso a equipamentos que reduzam a penosidade do trabalho no campo e garantam mais tempo para o lazer e para a vida comunitária”, afirmou.

Thalia Barbosa, secretária executiva do Ministério das Mulheres, reforçou que a ação integra a fase de implementação da Política Nacional de Cuidados. “Estamos na fase de implementação dessa política. É uma parceria entre diferentes ministérios, não apenas no financiamento, mas também na execução de serviços e equipamentos que viabilizem essa política na prática”, explicou. Para a secretária, o equipamento é fundamental para reduzir a sobrecarga histórica das mulheres. “Um espaço coletivo como a lavanderia contribui para aliviar essa responsabilidade e avançar na construção de políticas públicas voltadas para o bem viver”, concluiu.

A governadora Fátima Bezerra também destacou o protagonismo feminino. “É bem-estar, é cidadania, é promoção de direitos com foco voltado para as mulheres, para o empoderamento feminino. Que bom ver a tecnologia sendo utilizada para trazer exatamente isso: bem-estar e cidadania para as mulheres”, afirmou. A chefe de estado lembrou que a entrega se soma a outras iniciativas, como a regularização fundiária e os quintais produtivos, reforçando o caráter inovador da ação.