
Produto criado na Ufersa utiliza o resíduo (ou bagaço) do malte de cevada da indústria cervejeira, combinado com milho verde desidratado e amendoim para criar um alimento de alto valor proteico. Foto cedida.
Uma nova patente concedida à Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) promete revolucionar o mercado de lanches saudáveis ao unir economia circular e tradição cultural nordestina. O produto criado na Ufersa utiliza o resíduo (ou bagaço) do malte de cevada da indústria cervejeira, combinado com milho verde desidratado e amendoim, para criar um alimento de alto valor proteico e ainda com apelo cultural. Como resultado, os pesquisadores envolvidos obtiveram a patente BR 10 2024 018097 – 6, outorgada pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) no dia 21 de janeiro.
O reconhecimento é resultado do esforço de pesquisadores que atuam no Grupo de Processos e Análises Químicas (GPAQ) do campus de Pau dos Ferros da Ufersa.
“A indústria cervejeira gera, em média, cerca de 20 quilos de bagaço de malte para cada 100 litros de cerveja produzidos. Esse subproduto, que tradicionalmente é descartado ou destinado de forma limitada à alimentação animal, representa um desafio ambiental e logístico para o setor”, destaca a professora e líder da pesquisa, Shirlene Kelly Santos Carmo, da Ufersa. “Entretanto, o bagaço de malte apresenta elevado valor nutricional, com alta concentração de fibras e proteínas. Quando adequadamente processado, pode ser incorporado ao desenvolvimento de alimentos inovadores, agregando valor a um resíduo industrial, promovendo a sustentabilidade e ampliando as possibilidades de consumo humano.”

A professora e líder da pesquisa, Shirlene Kelly Santos Carmo, da Ufersa. Foto cedida.
A equipe de inventores conta também com os pesquisadores Guilherme Costa de Oliveira e Jean Berg Alves da Silva, responsáveis pelo desenvolvimento de um método de desidratação e processamento que estabiliza esse resíduo, incorporando-o a uma matriz de milho verde e amendoim torrado. “Dessa forma, chegaram a um resultado técnico interessante e com potencial: uma barra composta por 20% de resíduo de malte, 15% de milho verde desidratado e 10% de amendoim, aglutinados com xarope de glicose e óleo de coco”, afirma Shirlene Carmo.
Com base em análises laboratoriais, foi possível confirmar um teor de 8,96% de proteína, o que permite classificá-la oficialmente como “fonte de proteína” segundo as normas da ANVISA (RDC nº 54/2012). Além disso, o produto apresenta baixo pH (4,1), o que inibe naturalmente a proliferação de microrganismos, aumentando sua vida útil sem excesso de conservantes artificiais.
Diferencial de mercado e apelo “Junino”
O nome “Junina” não é utilizado por acaso. Ao integrar milho e amendoim (ingredientes presentes nas festas de São João), a barra de cereal patenteada cria uma identidade comercial imediata com o consumidor brasileiro, especialmente com o nordestino, evocando memória afetiva e regionalidade. “Assim, pode-se dizer que o potencial mercadológico é extremamente promissor”, avaliam os pesquisadores. “Ainda com foco em potencial de mercado, atualmente é pacificado que o consumidor moderno busca três pilares quando se trata de alimentação: praticidade, saudabilidade e sustentabilidade. Nesse sentido, a barra aqui apresentada atende aos três pilares, e ainda podemos agregar um quarto, o potencial para um preço competitivo, visto o baixo valor dos insumos necessários à produção”, afirmam.
“Este estudo visa explorar alternativas inovadoras para gerenciar o subproduto da indústria cervejeira”, destaca o relatório técnico da patente, documento que defende o papel da ciência brasileira em ações capazes de alinhar lucro e responsabilidade ambiental. Para investidores e indústrias de alimentos, a “Barra de Cereal Junina” representa uma oportunidade pronta para licenciamento: um produto validado, com alto apelo de marketing verde e baixo custo de matéria-prima.

Os pesquisadores atuam no Grupo de Processos e Análises Químicas (GPAQ) do campus de Pau dos Ferros da Ufersa. Foto cedida.